Finalmente parece que o outono chegou, pensou a mulher enquanto olhava para a vitrine. Ainda fazia calor, é verdade. Um calor úmido, pegajoso. Mas já não sufocava como antes, como durante todos aqueles meses de secura e brasa, em que as pessoas já clamavam aos céus por uma enxurr
Vestida de colombina – era como minha mãe estava no sonho. Uma colombina tardia, o carnaval já longe, mas foi assim que ela me surgiu. Com aquela colombina de um ombro só, o busto apertado por penses, a cintura justa que se abria de repente numa saia muito ampla. Uma colombina ve
Continuo sem entender muito bem. Hoje passou por mim um ser de sexo indefinido, que me deixou ainda mais confuso. Seu aspecto era muito estranho. Tinha um rosto delicado, um nariz pequeno, os lábios bem delineados, mas não muito grossos, formando, no conjunto, o que aqui se chama
Desde pequeno, ele gostava de colecionar coisas. Guardava, dentro de caixas e pastas, recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos, com a sensação de que um dia precisaria pesquisar as informações ali armazenadas. Tinha também especial prazer em observar o comportamento do
No mistério do papel em branco – da tela em branco – com o qual se depara pela primeira vez, a mulher reflete. Pensa no fluxo primeiro, o jorro, a sangria que lhe aflorou à pele, o veio de ouro e prata, a veia de sangue e dor, tudo o que brotou da terra e […]
Primeiro, eu o conheci através de um livro. Ia passeando por entre as estantes de uma livraria quando dei com dois exemplares colocados de pé, lado a lado, um mostrando a capa, o outro a contracapa. E foi justamente esta última que me fez parar. Porque ali estava, diante de mim,
Quando era criança, eu não gostava de Carnaval. Não é que não gostasse – eu tinha medo. Pavor. Carnaval para mim significava ganhar uma fantasia e ir passear, de mãos dadas com minha mãe, no Largo da Taquara (tínhamos um sítio em Jacarepaguá) ou no Centro da cidade. Nos dois caso
Tomou um susto quando olhou o calendário. Tinha esquecido o próprio aniversário de casamento. O marido não se lembrava nunca dessas coisas, mas ela, sim. Dessa vez, justamente dessa vez, era uma data redonda: dez anos. E ela esquecera. Que pena. Podiam ter saído para jantar, feit
Em uma esquina de Ipanema, daquelas bem arborizadas, já a caminho da Lagoa, paro e observo dois prédios, um ao lado do outro. São edifícios pequenos, de três andares, com detalhes art-decô e varandas inúteis mas simpáticas, mínimas, pouco mais do que sacadas. Nem um nem outro tem
A mulher tirou da estante o livro velho, de lombada gasta, e com ele nas mãos foi se sentar em um tamborete vermelho, que contrastava com o chão de ladrilho hidráulico, preto e branco. Ela estava em um sebo de livros no Catete, escondida num canto da casa onde ninguém podia vê-la
No início, era por causa do papel picado. Achávamos uma beleza aquele céu de verão que aparecia por entre os prédios, cheio de pedacinhos de papel esvoaçando, e também o chão coalhado de branco, numa espécie de Carnaval purificado. Havia uma beleza quase triste naquela chuva de p
Pendurou a última bola na árvore de Natal e deu alguns passos atrás. Estava bonita. Era um pinheiro artificial, mas parecia de verdade. Só bolas vermelhas. Nunca deixava de armar sua árvore, embora as amigas dissessem que era bobagem fazer isso quando se mora sozinha. Olhou com m
Eu queria escrever uma história feliz. Queria. Em meio a tanta escuridão, tanta sordidez e desesperança – por todos os lados –, tenho tentado me manter fiel ao que em mim clama para ser escrito: relatar histórias mínimas, detalhes nem sempre vistos em meio ao cotidiano massacrant
A mãe foi quem descobriu a arte do menino. Era um final de manhã e ela acabara de entrar em casa, chegando do armarinho. A família morava em uma casa baixa, de vila, com um espaço comum onde a garotada jogava bola. A mãe estranhou que o menino não estivesse lá fora jogando, mas,
Lá está ela. Vergada, sim – mas soberba. O cabelo branco preso num coque no alto da cabeça, o corpo muito magro apoiado na bengala. Parada junto ao meio-fio, do outro lado da rua, prepara-se para atravessar. Eu a vejo de longe, mas sua presença se impõe. O vestido é simples, de a
Era uma daquelas manhãs que o Rio exibe de vez em quando e que faz a gente esquecer todos os problemas – da cidade, do país, do mundo e os nossos próprios. E eu tinha decidido ir até a ponta do Arpoador, dar um mergulho. O Arpoador é um recanto da praia de Ipanema que […]
Assisti há tempos a uma reportagem sobre uma mulher. Uma mulher como eu, como tantas de nós, que se apaixonou, se casou, teve filhos, descasou, e que fez tudo isso enquanto trabalhava duro. Nós, mulheres, somos assim: temos jornadas duplas ou triplas, trabalhamos fora e em casa a
Há poucas semanas falei aqui de pedras. Pedras destruídas, História desfeita. O assunto era a cidade de Palmira, na Síria, e suas ruínas milenares sendo dinamitadas pelos fanáticos do Estado Islâmico. Pois bem, viajei. Estive fora por uma semana ou pouco mais e, na volta, revendo
Havia, muito antigamente, em algum ponto perdido de Portugal, um convento de freiras carmelitas conhecido por Convento Velho. Era uma construção imensa, que um dia já abrigara irmãs vindas das famílias mais nobres, sendo um privilégio viver entre suas paredes. Com o passar dos an
Dezoito de outubro. A mulher ficou olhando para o calendário de parede, na área de serviço. Era uma dessas folhinhas antigas, com estampa de santa, sobre a qual estava colado um bloco de folhas finas, que deviam ser arrancadas a cada dia. Toda manhã, quando ia à área de serviço f
Eu gosto de pedras. Fui criada em torno delas. Havia a gruta atrás do nosso sítio, em Jacarepaguá, no meio da mata, que formava um esconderijo perfeito para nós, crianças. Lá em cima, no bojo úmido e sombreado da caverna, longe da casa e dos olhos dos adultos, podíamos sonhar tod
O homem abriu os olhos – e pronto. Foi assim, um segundo apenas e estava completamente desperto, passando do sono ao alerta de forma instantânea, como sempre acontece com os gatos. Mas seus olhos não lhe mostraram nada, a escuridão era absoluta. Tentou se lembrar que lugar era aq
Eu estava no coro que cantou “Love of my life” junto com Freddie Mercury e o Queen no Rock in Rio de 1985. E no show de Paul McCartney no Maracanã em 1990, no dia que entrou para o Guiness como o maior público de um show de rock na história, com 184 mil pessoas. […]
Era um menino que gostava de ler. Desde muito pequeno, quando ainda não tinha sido alfabetizado, já se interessava por livros e revistas, principalmente as revistas de quadrinhos. Adorava história em quadrinhos. Era capaz de ficar horas e horas deitado no chão do quarto, com as r
Sou dessas pessoas que tomam nota dos títulos de todos os livros que leem, para no final do ano saber quantos foram. Desde que comecei a fazer tais anotações, tenho tido anos melhores e piores. Não lembro bem, mas meu recorde foi alguma coisa perto de 40 livros por ano. Gostaria
A mulher começou a tirar os objetos, um por um, da gaveta aberta. Papéis, pastas, recortes. Muitos envelopes, de vários tamanhos. Canetas, lápis. E, principalmente, muitas caixas. Caixas pequenas, médias, de papelão, de madeira, de plástico duro. Algumas tinham tachinhas, elástic
Os livros falam. A frase me paralisou. Fiquei olhando para ela, o jornal aberto entre as mãos. Quem disse isso foi Ana Beny, que trabalha restaurando livros e manuscritos na Espanha e no Egito, em entrevista à repórter Cristina Tardáguila. Ela explicava que, pelo formato das pági
O desafio de um conto minúsculo. Letras, ideias, sensações, contidas no espaço exíguo – circunscritas, prisioneiras. Um pequeno espaço, para nele despejar um oceano inteiro de paixões secretas. Mas não será como enxurrada, avalanche, enchente. Terá de ser gota a gota. Na verdade,