Minicontos

Novos contos mínimos

A continuação, hoje, de uma forma que Heloisa Seixas cultiva há décadas: a história inteira contida em poucas linhas.

Novos Contos Mínimos

Outono

Finalmente parece que o outono chegou, pensou a mulher enquanto olhava para a vitrine. Ainda fazia calor, é verdade. Um calor úmido, pegajoso. Mas já não sufocava como antes, como durante todos aqueles meses de secura e brasa, em que as pessoas já clamavam aos céus por uma enxurr

Novos Contos Mínimos

Sonho

Vestida de colombina – era como minha mãe estava no sonho. Uma colombina tardia, o carnaval já longe, mas foi assim que ela me surgiu. Com aquela colombina de um ombro só, o busto apertado por penses, a cintura justa que se abria de repente numa saia muito ampla. Uma colombina ve

Novos Contos Mínimos

Diário alienígena

Continuo sem entender muito bem. Hoje passou por mim um ser de sexo indefinido, que me deixou ainda mais confuso. Seu aspecto era muito estranho. Tinha um rosto delicado, um nariz pequeno, os lábios bem delineados, mas não muito grossos, formando, no conjunto, o que aqui se chama

Novos Contos Mínimos

Apenas um menino

Desde pequeno, ele gostava de colecionar coisas. Guardava, dentro de caixas e pastas, recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos, com a sensação de que um dia precisaria pesquisar as informações ali armazenadas. Tinha também especial prazer em observar o comportamento do

Novos Contos Mínimos

Papel em branco

No mistério do papel em branco – da tela em branco – com o qual se depara pela primeira vez, a mulher reflete. Pensa no fluxo primeiro, o jorro, a sangria que lhe aflorou à pele, o veio de ouro e prata, a veia de sangue e dor, tudo o que brotou da terra e […]

Novos Contos Mínimos

Sonho assombrado

Primeiro, eu o conheci através de um livro. Ia passeando por entre as estantes de uma livraria quando dei com dois exemplares colocados de pé, lado a lado, um mostrando a capa, o outro a contracapa. E foi justamente esta última que me fez parar. Porque ali estava, diante de mim,

Novos Contos Mínimos

É hoje

Quando era criança, eu não gostava de Carnaval. Não é que não gostasse – eu tinha medo. Pavor. Carnaval para mim significava ganhar uma fantasia e ir passear, de mãos dadas com minha mãe, no Largo da Taquara (tínhamos um sítio em Jacarepaguá) ou no Centro da cidade. Nos dois caso

Novos Contos Mínimos

Ecos de Poe

Tomou um susto quando olhou o calendário. Tinha esquecido o próprio aniversário de casamento. O marido não se lembrava nunca dessas coisas, mas ela, sim. Dessa vez, justamente dessa vez, era uma data redonda: dez anos. E ela esquecera. Que pena. Podiam ter saído para jantar, feit

Novos Contos Mínimos

Mais humanos

Em uma esquina de Ipanema, daquelas bem arborizadas, já a caminho da Lagoa, paro e observo dois prédios, um ao lado do outro. São edifícios pequenos, de três andares, com detalhes art-decô e varandas inúteis mas simpáticas, mínimas, pouco mais do que sacadas. Nem um nem outro tem

Novos Contos Mínimos

Girando no caos

A mulher tirou da estante o livro velho, de lombada gasta, e com ele nas mãos foi se sentar em um tamborete vermelho, que contrastava com o chão de ladrilho hidráulico, preto e branco. Ela estava em um sebo de livros no Catete, escondida num canto da casa onde ninguém podia vê-la

Novos Contos Mínimos

Papel picado

No início, era por causa do papel picado. Achávamos uma beleza aquele céu de verão que aparecia por entre os prédios, cheio de pedacinhos de papel esvoaçando, e também o chão coalhado de branco, numa espécie de Carnaval purificado. Havia uma beleza quase triste naquela chuva de p

Novos Contos Mínimos

Múltiplo sorriso

Pendurou a última bola na árvore de Natal e deu alguns passos atrás. Estava bonita. Era um pinheiro artificial, mas parecia de verdade. Só bolas vermelhas. Nunca deixava de armar sua árvore, embora as amigas dissessem que era bobagem fazer isso quando se mora sozinha. Olhou com m

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Eu queria escrever uma história feliz

Eu queria escrever uma história feliz. Queria. Em meio a tanta escuridão, tanta sordidez e desesperança – por todos os lados –, tenho tentado me manter fiel ao que em mim clama para ser escrito: relatar histórias mínimas, detalhes nem sempre vistos em meio ao cotidiano massacrant

Novos Contos Mínimos

O menino e a palavra

A mãe foi quem descobriu a arte do menino. Era um final de manhã e ela acabara de entrar em casa, chegando do armarinho. A família morava em uma casa baixa, de vila, com um espaço comum onde a garotada jogava bola. A mãe estranhou que o menino não estivesse lá fora jogando, mas,

Novos Contos Mínimos

Viajante do tempo

Lá está ela. Vergada, sim – mas soberba. O cabelo branco preso num coque no alto da cabeça, o corpo muito magro apoiado na bengala. Parada junto ao meio-fio, do outro lado da rua, prepara-se para atravessar. Eu a vejo de longe, mas sua presença se impõe. O vestido é simples, de a

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Quanto tempo?

Era uma daquelas manhãs que o Rio exibe de vez em quando e que faz a gente esquecer todos os problemas – da cidade, do país, do mundo e os nossos próprios. E eu tinha decidido ir até a ponta do Arpoador, dar um mergulho. O Arpoador é um recanto da praia de Ipanema que […]

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Uma heroína brasileira

Assisti há tempos a uma reportagem sobre uma mulher. Uma mulher como eu, como tantas de nós, que se apaixonou, se casou, teve filhos, descasou, e que fez tudo isso enquanto trabalhava duro. Nós, mulheres, somos assim: temos jornadas duplas ou triplas, trabalhamos fora e em casa a

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A educação pela pedra

Há poucas semanas falei aqui de pedras. Pedras destruídas, História desfeita. O assunto era a cidade de Palmira, na Síria, e suas ruínas milenares sendo dinamitadas pelos fanáticos do Estado Islâmico. Pois bem, viajei. Estive fora por uma semana ou pouco mais e, na volta, revendo

Novos Contos Mínimos

Página em branco

Havia, muito antigamente, em algum ponto perdido de Portugal, um convento de freiras carmelitas conhecido por Convento Velho. Era uma construção imensa, que um dia já abrigara irmãs vindas das famílias mais nobres, sendo um privilégio viver entre suas paredes. Com o passar dos an

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O vulcão

Dezoito de outubro. A mulher ficou olhando para o calendário de parede, na área de serviço. Era uma dessas folhinhas antigas, com estampa de santa, sobre a qual estava colado um bloco de folhas finas, que deviam ser arrancadas a cada dia. Toda manhã, quando ia à área de serviço f

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As pedras de Palmira

Eu gosto de pedras. Fui criada em torno delas. Havia a gruta atrás do nosso sítio, em Jacarepaguá, no meio da mata, que formava um esconderijo perfeito para nós, crianças. Lá em cima, no bojo úmido e sombreado da caverna, longe da casa e dos olhos dos adultos, podíamos sonhar tod

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A presença

O homem abriu os olhos – e pronto. Foi assim, um segundo apenas e estava completamente desperto, passando do sono ao alerta de forma instantânea, como sempre acontece com os gatos. Mas seus olhos não lhe mostraram nada, a escuridão era absoluta. Tentou se lembrar que lugar era aq

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Multidões

Eu estava no coro que cantou “Love of my life” junto com Freddie Mercury e o Queen no Rock in Rio de 1985. E no show de Paul McCartney no Maracanã em 1990, no dia que entrou para o Guiness como o maior público de um show de rock na história, com 184 mil pessoas. […]

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O céu dos gatos

Era um menino que gostava de ler. Desde muito pequeno, quando ainda não tinha sido alfabetizado, já se interessava por livros e revistas, principalmente as revistas de quadrinhos. Adorava história em quadrinhos. Era capaz de ficar horas e horas deitado no chão do quarto, com as r

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Um olhar de Proust

Sou dessas pessoas que tomam nota dos títulos de todos os livros que leem, para no final do ano saber quantos foram. Desde que comecei a fazer tais anotações, tenho tido anos melhores e piores. Não lembro bem, mas meu recorde foi alguma coisa perto de 40 livros por ano. Gostaria

Novos Contos Mínimos

Por quê?

A mulher começou a tirar os objetos, um por um, da gaveta aberta. Papéis, pastas, recortes. Muitos envelopes, de vários tamanhos. Canetas, lápis. E, principalmente, muitas caixas. Caixas pequenas, médias, de papelão, de madeira, de plástico duro. Algumas tinham tachinhas, elástic

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Os livros falam

Os livros falam. A frase me paralisou. Fiquei olhando para ela, o jornal aberto entre as mãos. Quem disse isso foi Ana Beny, que trabalha restaurando livros e manuscritos na Espanha e no Egito, em entrevista à repórter Cristina Tardáguila. Ela explicava que, pelo formato das pági

Novos Contos Mínimos

Sempre aos domingos

O desafio de um conto minúsculo. Letras, ideias, sensações, contidas no espaço exíguo – circunscritas, prisioneiras. Um pequeno espaço, para nele despejar um oceano inteiro de paixões secretas. Mas não será como enxurrada, avalanche, enchente. Terá de ser gota a gota. Na verdade,